Pesquisa destaca pela primeira vez compostos voláteis em espécies nativas do Brasil e propõe novas abordagens para o uso de aromas naturais.

No dia 31 de julho, o pesquisador Raphael Oliveira de Figueiredo defendeu sua dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Química da Universidade Federal do Pará (UFPA). Vinculado ao Laboratório de Química de Produtos Naturais (LaQuiProN), Raphael agora é mestre com o trabalho intitulado “Composição química dos aromas de frutos comestíveis no nordeste do Pará”, sob orientação dos professores Dr. José Guilherme Soares Maia e Dr. Pablo Luis Baia Figueire.

A pesquisa se destaca pelo rigor analítico e pela originalidade na abordagem dos compostos voláteis de frutos, pseudofrutos e infrutescências, sejam eles nativos, exóticos ou naturalizados, comumente consumidos nas feiras livres da região amazônica. As coletas ocorreram em municípios estratégicos como Curuçá, Abaetetuba, Belém, Cametá e Salvaterra, refletindo a diversidade ecológica e cultural da alimentação local.

A dissertação foi estruturada em dois capítulos. No primeiro, intitulado “Frutas comestíveis no Brasil: uma revisão quimiométrica de seus constituintes voláteis e perfis fitoquímicos”, A diversidade taxonômica observada nesta etapa inclui 32 espécies distribuídas em 14 famílias botânicas, com destaque para as famílias Myrtaceae (11 espécies) e Anacardiaceae (8 espécies), seguidas por Annonaceae (3 espécies), Fabaceae (2 espécies) e outras famílias com apenas uma espécie registrada. No que diz respeito à origem, foram identificadas 17 espécies nativas e 15 naturalizadas, sendo que as famílias Myrtaceae e Anacardiaceae apresentaram o maior número de espécies tanto nativas quanto naturalizadas. Já no segundo capítulo, “Composição química de aromas de frutos comestíveis no estado do Pará”, o pesquisador investigou a composição volátil de 32 espécies pertencentes a 14 famílias botânicas, com destaque para Myrtaceae (6 espécies) e Anacardiaceae (5 espécies), além de Arecaceae, Clusiaceae e Malvaceae. A análise dos perfis químicos, realizada com base em métodos de extração e técnicas de análise multivariada como PCA e HCA, revelou uma alta variabilidade intraespecífica entre os frutos, influenciada pelo local de coleta, estágio de maturação e método de extração.


Entre os resultados de maior impacto, a pesquisa destaca a identificação inédita de 24 aromas de frutos, incluindo os primeiros relatos de compostos voláteis em espécies da família Arecaceae, todas nativas do Brasil.

No total, os compostos majoritários foram os terpenos, especialmente monoterpenos e sesquiterpenos, com presença recorrente de limoneno, mirceno, terpinoleno, α/β-pineno, linalol e E-cariofileno. A dissertação também faz um alerta importante: embora os perfis químicos encontrados sejam promissores para usos em cosméticos, alimentos e fitoterápicos, ainda há falta de padronização nos métodos de extração e escassez de estudos sazonais que considerem a variabilidade química ao longo do tempo.
Segundo Raphael, “os resultados reforçam a importância de aprofundar pesquisas voltadas à conservação e ao uso sustentável da biodiversidade amazônica, aliando conhecimento tradicional e inovação”.

O trabalho representa um marco no fortalecimento da química aplicada à biodiversidade no estado do Pará e reforça o protagonismo do LaQuiProN na formação de pesquisadores comprometidos com a valorização científica dos recursos naturais da Amazônia.
Os interessados em conhecer mais sobre essa e outras pesquisas desenvolvidas no Laboratório de Química de Produtos Naturais (LaQuiProN), bem como acompanhar os bastidores das coletas, curiosidades sobre os frutos estudados e a atuação do grupo na valorização da biodiversidade amazônica, podem seguir o perfil no Instagram: @laquipron.
Texto e Fotos: Henrique Gomes (Bolsista de Apoio à Difusão do Conhecimento 1C – CNPq).
